Ajudas tanto que te esqueces de ti?

Quando cuidar de todos é uma forma de te abandonares

Há pessoas que têm um coração enorme. Sentem o sofrimento dos outros, estão sempre disponíveis, acolhem, escutam, ficam. E isso é uma qualidade bonita. Mas, por vezes, a vontade de ajudar muda de natureza: deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.

 

Quando ajudar vira missão

Quem tem esta tendência raramente se aproxima de alguém só pelo prazer de estar. Muitas vezes sente que tem uma missão com aquela pessoa: protegê-la, repará-la, orientá-la, resgatá-la. A relação deixa de ser um encontro entre duas pessoas e passa a ser um projeto de recuperação.

E, por dentro, parece amor profundo. Só que, em muitos casos, parte dessa entrega está ligada à necessidade de nos sentirmos necessárias, importantes, validadas. O sofrimento do outro torna-se um chamamento constante para agir, intervir ou ficar.

 

O que talvez estejas a evitar

Quando passamos muito tempo concentradas nos problemas de alguém, sobra pouco espaço para olhar para os nossos. Ajudar pode tornar-se, sem darmos por isso, uma forma de fugir de nós. Por isso, em vez de perguntar “porque é que me ligo sempre a pessoas que parecem precisar de mim?”, talvez valha mais a pena perguntar: o que é que eu estou a evitar sentir enquanto estou tão ocupada a cuidar de alguém?

Muitas vezes, aquilo que tentamos curar no outro é algo que ainda não conseguimos acolher em nós: uma criança que se sentiu rejeitada, um medo de abandono, uma culpa antiga. Ao tentar salvar alguém, procuramos, de forma indireta, salvar-nos também.

 

Valer pelo que damos

Em quem costuma acontecer? Muitas vezes, em quem aprendeu, desde cedo, que só merecia amor quando era útil. Nesse caso, a identidade constrói-se à volta de ajudar: “eu sou aquilo que faço pelos outros”. Sente-se amada quando cuida, importante quando sustenta, necessária quando resolve. E quando não há ninguém para ajudar, pode aparecer um vazio, uma sensação de inutilidade ou de perda de propósito.

 

O custo de dar sem receber

A longo prazo, este padrão cobra um preço: cansaço emocional, uma sensação persistente de vazio e de não ser vista, apesar de tanta entrega. A troca fica desequilibrada, uma pessoa dá e a outra recebe, e pequenos gestos passam a justificar grandes investimentos. Com o tempo, surgem o ressentimento e a desilusão, e as nossas próprias necessidades vão ficando para depois.

 

Amar sem te perderes

O problema nunca foi a vontade de ajudar. É o momento em que ajudar deixa de ser uma escolha livre e passa a ser a única forma de nos sentirmos com valor. Quando reconhecemos o nosso valor independentemente do que damos, a ajuda torna-se mais limpa e mais verdadeira. Percebemos que é possível ajudar sem resgatar, cuidar sem carregar, ficar sem nos sacrificarmos e partir sem culpa.

 

E tu, quem cuida de ti enquanto cuidas de todos?

Se sentires que é o momento de compreender melhor a tua história e a forma como te relacionas, vem falar comigo.

Com carinho,

Patrícia

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