E se estiveres a repetir aquilo que mais rejeitas?
Há momentos em que nos surpreendemos com as nossas próprias atitudes. Reagimos de uma forma que não reconhecemos, repetimos comportamentos que sempre criticámos ou damos por nós em situações semelhantes àquelas que jurámos nunca viver.
Já reparaste que aquilo que mais rejeitamos parece ser, muitas vezes, aquilo que mais volta à nossa vida?
Às vezes, aquilo de que mais tentamos afastar-nos continua a ocupar um lugar demasiado grande dentro de nós. Julgar é, muitas vezes, a forma que encontrámos de nos proteger da dor. Mas quando gastamos energia a condenar, a rejeitar ou a provar que somos diferentes, continuamos a organizar a nossa vida em torno de quem rejeitamos, só que pelo avesso. E ficamos ligados a essa pessoa através daquilo que não conseguimos resolver.
Quando julgamos e condenamos, mantemos a nossa atenção presa àquilo que rejeitamos.
Numa leitura energética, essa ligação pode ser entendida como uma forma de continuarmos envolvidos com a experiência que tanto queremos afastar. Isto quer dizer que aquilo a que resistimos intensamente pode continuar a influenciar a forma como pensamos, sentimos e agimos.
Na minha forma de olhar para as relações, estamos todos ligados por uma experiência humana muito mais ampla do que as identidades que assumimos em cada momento, e talvez todos, de alguma maneira, já tenhamos estado dos dois lados, o de quem magoa e o de quem é magoado. É uma perspetiva pessoal, mas leva-me a uma pergunta que acho importante:
até que ponto conseguimos compreender verdadeiramente alguém quando o reduzimos ao seu pior comportamento?
Olhar para a nossa sombra, ou seja, para as partes de nós que ainda não conseguimos compreender, ajuda-nos a ver para além do julgamento. Não é para encontrarmos culpa em tudo o que fazemos, mas para percebermos o que essa rejeição nos quer dizer.
Reconhecer o lugar de alguém na nossa história não é aprovar o que fez, nem reatar a relação, nem abdicar dos nossos limites.
É deixar de precisar de o condenar para podermos seguir um caminho diferente.
Isso ajuda-nos a olhar para o passado com menos necessidade de lutar contra ele, e abre espaço para escolhas mais conscientes, sem passarmos a vida a provar que somos diferentes.
Por isso, da próxima vez que te apanhares a criticar alguém, podes perguntar-te: e se esta pessoa tivesse algo para me mostrar sobre mim?
Talvez não precises de mudar a tua opinião sobre o que aconteceu. Talvez precises apenas de deixar de viver presa à necessidade de condenar quem o fez.
Não podemos mudar o passado, mas podemos transformar a relação que temos com ele.
Estou aqui, se precisares.
Com carinho,
Patrícia