A traição é uma das dores mais complexas de atravessar. Não é apenas a quebra de um compromisso; é o chão que desaparece sob os nossos pés.
Quando olhas para trás, o que é que te custa mais?
Talvez seja a sensação profunda de teres sido desprezada, a perceção dolorosa de que ele não levou em consideração o que tu pensavas ou sentias, colocando apenas o prazer e as vontades dele em primeiro lugar.
Ou talvez seja a perda do futuro. A destruição daquele futuro que idealizaste, a fratura na base da relação e a dolorosa descoberta de que, afinal, talvez não tivesses o lugar de importância que imaginavas na vida dele.
Quando há uma traição, não é sobre ti, é sobre quem trai. Por isso, se puderes, deixa de te culpar por teres confiado na pessoa errada. Isso é apenas a tua mente a usar a autocobrança para tentar criar uma ilusão de controlo.
Tu confiaste porque viste possibilidades, e não porque merecesses ser enganada. Quando alguém quebra a nossa confiança, a mente começa a procurar erros em nós. Revivemos conversas a tentar descobrir onde devíamos ter desconfiado. Mas saber como uma relação acabou não quer dizer que a pudesses ter previsto. Reconhecer a dor é diferente de a alimentar com julgamentos, sobre ti ou sobre o outro. Podes aprender com esta experiência sem transformar confiança em vergonha.
Fechar o coração parece segurança, mas muitas vezes é ficar a viver dentro de um castelo, protegida por muros que também te prendem. E quando isso acontece, a pessoa que foi embora acaba por continuar a decidir o teu futuro afetivo. Olha com atenção para o poder que, sem querer, lhe podes estar a dar sobre a tua vida.
Dói mais quando alimentamos a história dentro da cabeça. Deixar ir é também uma forma de amor e de libertação. Ele quis ir, e tu podes deixá-lo ir. Tu tens o direito de escolher o que queres para ti, e essa é a única coisa sobre a qual tens verdadeiro controlo: tu.
Dói porque custa abrir mão da pessoa que idealizámos. Dói porque percebemos que a relação não era como a imaginávamos.
Por isso, precisas de fazer luto. O luto da relação real e o luto da relação que poderia ter sido. É preciso enterrar a promessa do futuro.
Quando estiveres pronta, podes perguntar-te: o que é que isto me veio ensinar sobre mim?
Talvez seja o que fazer com a tua raiva. Talvez seja a seres mais resiliente. Talvez seja a ouvir a tua intuição. Talvez seja a pedires ajuda. Talvez seja a viveres o luto de um amor perdido. Talvez seja a não te abandonares.
O que observo é que a maioria das pessoas procura uma forma de não sofrer. Mas sofrer faz parte. Sempre que entramos numa relação humana, existe risco, e se não quisermos sentir emoções fortes, não conseguimos viver uma relação. O que podemos aprender é a acolher o sofrimento inevitável, sem nos perdermos nele.
E para sair do castelo, vais ter de atravessar os portões, mesmo com medo. Só precisas de fazer o enterro, e dar-te permissão para recomeçar.
A vida é como é, e cada uma de nós está onde consegue, da maneira que pode. Também isso faz parte do caminho.
Se precisares de pôr em palavras o que estás a sentir e aliviar o peso que carregas, ficarei muito feliz por receber a tua mensagem.
Com carinho,
Patrícia